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terça-feira, janeiro 08, 2008

Emigrem!

As palavras não são nossas, mas de um grande jornalista, Fernando Paulouro das Neves, também director do GRANDE Jornal do Fundão, e onde escrevem também outros jornalistas e escritores como Batista-Bastos e Arnaldo Saraiva. E valerá a pena, pensamos, citar aqui a sua crónica, publicitada no jornal de 3 de Janeiro, pela referência que se faz ao cosmético momento actual, ao fascismo travestido ou higiénico como refere Pacheco Pereira. Num momento em que era importante reforçar a capacidade crítica e construtiva dos cidadãos, a cidadania, constatamos, no entanto, que mesmo em sectores importantes da administração, viçosamente medram ervas daninhas. O universo policiesco está em crescimento.

«Há na narrativa da actualidade política uma cosmética que tende a transformar a realidade numa fantasia. A televisão, por via do charme da imagem, dá amplidão a essa simbiose de informação e propaganda, às vezes misturadas com sangue e lágrimas de todas as latitudes, numa selecção da realidade que introduz abundantes angústias para o jantar. Mas se estivermos atentos, o saldo global sobre a informação política (na generalidade dos meios de comunicação) gira no sentido de criar a ilusão de um paraíso onde, afinal de contas, tudo está bem ou bem melhor do que nós, pobres habitantes do país relativo, mereceríamos. Desfilam, alegres e contentes, pelos ecrãs, dando razão à perplexidade de Umberto Eco quando um dia perguntou a si próprio por que razão estes sujeitos do universo político e afim riem tanto na gaiola doirada que é a televisão. O outro não disse que, se quisesse, vendia lá um presidente da República.

Quer isto dizer que o cidadão comum está cada vez mais desarmado e refém dessa contingência que é o mimetismo entre a política e o espectáculo. A capacidade crítica de cada um teria assim um papel crucial na separação do trigo e do joio e no apuro da semente da própria democracia. Só que a cultura democrática, como exigência cívica, está em crise, os medos vieram para ficar na sociedade portuguesa – Pacheco Pereira caracterizava esta semana o tempo português como “fascismo higiénico”. É, também, por essas debilidades culturais, que a arrogância cresce impune em todos os patamares do poder, do mais alto ao mais baixo, como se os portugueses fossem, agora, meros súbditos, com carne apenas de obedecer.
Ainda esta semana, o chefe da Asae, impondo retoricamente o universo policiesco do seu departamento, dizia numa entrevista a um semanário que, se não quisermos viver numa sociedade assim configurada, “podemos sempre emigrar” … Esta arrogância vale por mil regulamentos. E é, porventura, afloramento do tal “fascismo higiénico” que é o calendário dos novos tempos modernos. Herdeiros do célebre “ come e cala” salazarista, órfãos do “paizinho autoritário”, como diria Jorge de Sena, sorrimos à canga, ao vexame, e fingimos que está tudo bem, que o xico-espertismo é, afinal, um dom que os deuses abençoaram os cidadãos acima de qualquer suspeita.»

Fernando Paulouro Neves, Jornal do Fundão de 3 de Janeiro.

(in Reginot)

2 comentários:

Manjedoura disse...

"Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas nao se dizem violentas as margens que o oprime"
(Bertold Brecht)

emigrante disse...

isto é um governo de borra giestas