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terça-feira, abril 01, 2008

Á conversa com padre Mário


O que sente alguém preso sem ter cometido qualquer crime? Há arrependimento? Nalgum momento se pensa "eu sei que tenho razão mas se estivesse calado e quieto evitava estar aqui"?

No meu caso, senti-me sempre fortemente injustiçado pelo facto de estar preso. E das duas vezes que me levaram para a Cadeia política, comecei sempre por protestar por escrito, através de exposições que fazia chegar ao respectivo director. Bem sabia que, na prática, esses meus protestos escritos de nada valiam, mas o gesto, só por si, consubstanciava a inequívoca afirmação da minha própria dignidade perante o Regime bruto e cruel que prendia pessoas inocentes, só porque elas lhe eram politicamente incómodas. Mas, depois, uma vez metido à força na prisão política, nunca senti qualquer arrependimento pelas posições anteriormente tomadas. Pelo contrário, ao ver-me injustamente na prisão, dei-me conta cada vez mais da perversidade e da crueldade do Regime que me havia prendido. Era, por isso, um Regime a denunciar sem cessar, desmascarar e combater cada vez com mais audácia e determinação. Em nome da Humanidade e da dignidade das pessoas. Recordo-me, a este propósito, que quando, depois da minha primeira prisão política em Caxias, regressei à paróquia, em lugar de me comportar com mais cautelas que anteriormente, acirrei ainda mais o combate pela libertação das pessoas e dos povos contra o Regime. Afinal, o Regime havia transformado o país numa prisão. Por isso, não tinha que ser respeitado, mas simplesmente desmascarado, até ser abolido. E foi o que passei a fazer com redobrada determinação, depois da primeira prisão política que sofri. Tenho consciência que não há dignidade humana sem liberdade. E sem luta pela liberdade, quando esta ainda não é o pão na vida de todas as pessoas e de todos os povos. No meu entender, o medo e a "prudência", perante regimes autoritários, para não se ser incomodado por eles, nunca são caminho para se ser homem, mulher com todas as letras. Por isso, não esperem que eu cultive essas "virtudes". Prefiro sempre a via da dissidência, como caminho para a verdadeira paz.

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